Telemedicina, formação médica e tecnologia: Dr. Altair Massaro na Rádio Central FM

O Dr. Altair Massaro, Gerente Técnico Estratégico e de Novos Negócios da BNG Hub, foi o convidado do programa Debate Central, da Rádio Central FM de Campinas. Em pouco mais de uma hora de conversa, ele tratou da resolutividade da telemedicina, do déficit de vagas de residência médica no Brasil, do modelo figital que a BNG Hub tem implantado em municípios de diferentes estados e do papel da inteligência artificial como apoio ao médico. Reunimos aqui os principais pontos da entrevista.


Quem é o Dr. Altair Massaro

Médico formado pela Unicamp em 1989, o Dr. Altair reúne mais de 30 anos de experiência em gestão hospitalar, governança clínica e liderança médica. Fez residência em tocoginecologia e mestrado em Saúde Coletiva, ambos na Unicamp, e especialização em Medicina Intensiva no Hospital Albert Einstein. Na assistência, seguiu para urgência, emergência e terapia intensiva, com passagem pelo SAMU Campinas.

Sua trajetória combina três frentes que aparecem com clareza ao longo da entrevista.

Na política pública nacional, foi consultor do Ministério da Saúde por mais de 16 anos, entre 2001 e 2017. Participou da Política Nacional de Humanização, o HumanizaSUS, da Qualificação da Atenção e da Gestão, o QualiSUS, e do Projeto SOS Emergência, iniciativas que apoiaram a melhoria assistencial em redes hospitalares e de urgência e emergência em estados de todo o país. Esse repertório explica a leitura que ele faz do SUS e do desafio de qualificar o acesso diante de recurso finito.

Na formação de lideranças médicas, foi docente do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por 11 anos, entre 2013 e 2023. Ali atuou no desenvolvimento de currículo em gestão hospitalar e governança clínica, na mentoria de médicos em transição para posições executivas e na formação de docentes e preceptores com foco em metodologias ativas de ensino. É desse lugar que vem sua defesa da capacitação continuada como responsabilidade do sistema, e não do profissional isolado.

Na gestão hospitalar, foi coordenador médico e diretor de linha de cuidados cirúrgicos do Hospital Mário Gatti, em Campinas, por 16 anos, assessor técnico da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas e diretor geral e técnico do Hospital Maternidade de Campinas.

Hoje, como gerente técnico estratégico e de novos negócios da BNG Hub, lidera projetos de inovação em telemedicina, saúde corporativa e protocolos clínicos, incluindo a estruturação de fluxogramas de atendimento e governança clínica para plataformas de telemedicina.


Por que a telemedicina é segura, segundo o Dr. Altair Massaro

O Dr. Altair começou descartando o argumento que costuma abrir esse debate, o de que a telemedicina se justificaria porque o exame físico já teria perdido espaço na prática clínica. Para ele, esse é um raciocínio que não se sustenta, porque usa uma falha para justificar outra.

A defesa que ele apresenta é positiva e parte da incorporação de tecnologia que a medicina sempre fez. Quando ele se formou, o ultrassom ainda produzia imagens precárias. Hoje, para uma avaliação pulmonar, cardíaca ou abdominal, o ultrassom entrega mais informação do que o estetoscópio. A angiotomografia permite visualizar as coronárias com boa precisão, sem a necessidade de um cateter.

“A gente tem capacidade de discernir até onde vai e o que é possível de responder”, afirmou. É esse discernimento clínico, e não a distância física, que define a segurança do atendimento remoto e o momento em que o paciente precisa ser encaminhado para avaliação presencial.


Quanto a telemedicina resolve na prática

Os patamares de resolutividade citados na entrevista foram:

  • De 90% a 95% das questões clínicas resolvidas em telemedicina
  • De 70% a 75% das questões de clínica cirúrgica resolvidas a distância


O Dr. Altair explicou que, mesmo nos casos com indicação cirúrgica, o atendimento remoto tem papel relevante. Um paciente com cálculo na vesícula ou no rim pode ter boa parte do preparo conduzido a distância, chegando mais bem preparado ao procedimento.

O advento da telemedicina hoje é seguro e tem resolutividade comprovada”, resumiu.


O déficit de vagas de residência e a distribuição de especialistas

Um dos trechos mais densos da entrevista tratou de um gargalo estrutural da saúde brasileira. O Brasil forma cerca de 32 mil médicos por ano, número com tendência de alta pela ampliação das escolas de medicina. As vagas de residência médica, no mesmo período, somam de 16 mil a 19 mil. A diferença é um déficit de aproximadamente 12 mil vagas por ano.

A residência segue sendo o padrão ouro da formação médica. São anos dentro do hospital depois dos seis anos de graduação, chegando a cinco anos adicionais em algumas especialidades. Ampliar a formação sem ampliar na mesma proporção a capacidade de absorção em residência mantém esse gap aberto.

A consequência aparece na ponta. Especialista escasso é mais difícil de contratar e de fixar em determinadas regiões. O Dr. Altair citou a clínica que a BNG mantém em parceria em Itaquera, na zona leste da cidade de São Paulo, onde atua como referência técnica, e onde há dificuldade para alocar reumatologista e psiquiatra. Se o desafio existe dentro da capital paulista, ele se amplia no interior do país.

A telemedicina responde exatamente a essa distância. O especialista pode estar na zona leste de São Paulo e atender pacientes no Ouro Verde ou no Campo Grande, em Campinas.


O modelo figital: o físico e o digital no mesmo atendimento

O Dr. Altair diferenciou dois formatos de telemedicina em operação.

O primeiro é o teleatendimento direto, em que o paciente usa o próprio celular, tablet ou computador para falar com o médico. Funciona bem para acompanhamento e para casos em que os exames já estão disponíveis.

O segundo é o modelo que a BNG Hub tem implantado, chamado de figital, a junção de físico e digital. Nele, a unidade de saúde, pública ou privada, recebe a estrutura de telemedicina e conta com um enfermeiro que acolhe o paciente presencialmente. Esse profissional afere pressão, temperatura e demais sinais, faz o cadastro e conecta o paciente ao médico, que pode estar em outra cidade. A consulta acontece com um profissional de saúde ao lado do paciente durante todo o atendimento.

O resultado é um atendimento mais seguro do ponto de vista clínico, porque o médico decide com dados aferidos por um profissional, e mais acolhedor para o paciente. O modelo já opera em São Sebastião, Mirassol e em municípios do interior de Pernambuco, estes últimos por meio de contrato com um consórcio.


Inteligência artificial como apoio ao médico

“A gente precisa colocar a tecnologia a serviço do homem”, disse o Dr. Altair ao tratar do tema. Para ele, a questão não é substituir o profissional, e sim ajudá-lo.

Ele apontou três aplicações concretas no cuidado:

Registro automático da consulta. A transcrição do atendimento pode ser feita com segurança e em conformidade com a LGPD, o que tira do médico a tarefa de digitar enquanto atende e devolve esse tempo ao paciente, sem prejuízo do registro clínico e da obrigação legal.

Memória do atendimento. Em uma jornada ambulatorial de quatro a seis horas, um médico atende de 20 a 30 pacientes. Recuperar o detalhe de uma consulta feita há dois meses não é viável sem apoio. A tecnologia traz esse histórico para a tela no momento certo, o que qualifica o diagnóstico e a continuidade do cuidado.

Apoio à decisão sobre exames. Um copiloto baseado nos melhores protocolos e referências pode indicar quando uma tomografia é necessária e quando outra abordagem responde melhor à pergunta clínica. O Dr. Altair situou esse ponto dentro de uma preocupação maior com o uso do recurso disponível: reduzir custo em saúde é o que permite atender melhor e mais pessoas, sempre sem interferir na conduta médica e respeitando o compliance.


Etarismo e atualização: o médico jovem e o médico experiente

Perguntado se um paciente pode confiar da mesma forma em um médico de 26 anos e em um de 70, o Dr. Altair rejeitou o etarismo nas duas direções. Nem o profissional jovem entrega menos por ser jovem, nem o experiente entrega menos por ser experiente. O que diferencia, na avaliação dele, é o acesso à atualização.

Ele descreveu uma tendência bem estudada. O recém-formado sai da faculdade com contas a pagar, entra no ritmo do trabalho e perde tempo e estímulo para estudar. O profissional mais experiente pode seguir por décadas praticando a medicina com que se formou. Nos dois casos, buscar atualização sozinho é difícil, e conteúdo avulso na internet entrega fragmento disperso, não formação estruturada.

“É importante que o sistema oportunize isso para ele”, afirmou.

É por essa razão que a capacitação é uma das frentes de trabalho da BNG Hub, articulada com a seleção e o acompanhamento das equipes. A proximidade com o médico que atende permite identificar onde a capacitação é necessária e oferecê-la de forma organizada.


O SUS na avaliação do Dr. Altair Massaro

Ao longo da conversa, o Dr. Altair fez questão de situar todo o debate dentro do sistema público. Para ele, o SUS é o maior advento da história da humanidade em política pública de saúde, e a afirmação não é exagero: são mais de 200 milhões de pessoas atendidas, com acesso garantido a qualquer pessoa em território nacional, inclusive a quem tem plano privado.

A cobertura vai da consulta de rotina de um recém-nascido ao transplante de coração, fígado ou rim, passando pela vigilância sanitária, pela assistência farmacêutica, pela atenção primária e pela atenção especializada. Ele lembrou também que hospitais de excelência como Sírio-Libanês, Einstein e Beneficência Portuguesa realizam cirurgias de grande porte pelo SUS.

O desafio, na leitura dele, é de capacidade operacional diante de um recurso finito. Qualificar o acesso, garantir que quem tem mais necessidade seja atendido primeiro e evitar consumo desnecessário de recurso diagnóstico são caminhos para ampliar o alcance do que já existe. É nesse ponto que a telemedicina, o modelo figital e o apoio à decisão clínica contribuem.


O que a BNG Hub faz em Campinas e no Brasil

A BNG Hub atua na gestão e no provimento de equipes médicas para serviços de saúde públicos e privados em todo o país, incluindo centros de saúde, unidades básicas e UPAs. Em Campinas, os médicos da BNG atendem em unidades como a UPA São José e a UPA Campo Grande. O trabalho abrange a seleção desses profissionais, o acompanhamento técnico e a capacitação continuada das equipes, além dos projetos de telemedicina e da implantação do modelo figital em municípios de diferentes estados.

Se você representa uma instituição de saúde que busca ampliar cobertura assistencial, estruturar um projeto de telemedicina ou fortalecer a gestão de suas equipes médicas, a BNG Hub está pronta para apoiar sua jornada.

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Entrevista concedida ao programa Debate Central, da Rádio Central FM de Campinas, em 25 de agosto de 2025.